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Financiar para permanecer

Durante décadas, blocos afro, afoxés e outras entidades de matriz africana ocuparam lugar central no Carnaval de Salvador, mas enfrentaram dificuldades para financiar seus desfiles. Em 2008, o Governo da Bahia criou o Programa Ouro Negro para substituir negociações dispersas por um mecanismo público de seleção e apoio financeiro.

O edital organiza categorias como afro, afoxé, samba, reggae e bloco de índio, estabelece faixas de financiamento e exige histórico, participação comunitária, mobilização e presença de elementos culturais de matrizes africanas. Em 2026, as faixas para o Carnaval de Salvador variaram de R$ 30 mil a R$ 1 milhão por projeto. Filhos de Gandhy, Ilê Aiyê e Olodum aparecem entre os classificados na faixa máxima.

A política permanece ativa e vem sendo revista com participação das entidades. Em 2025, Secult e Sepromi realizaram consulta pública para aperfeiçoar o edital. Estudos sobre blocos afro mostram que essas organizações vão além do desfile: atuam em formação, identidade, educação estética e produção de territórios negros. Isso não prova que o Ouro Negro, isoladamente, produza esses efeitos, mas ajuda a explicar por que financiar o desfile também sustenta estruturas culturais que funcionam durante o ano.

A inovação foi transformar reconhecimento simbólico em regra de acesso a recursos. O princípio transferível: culturas tradicionais ganham capacidade de permanência quando o financiamento público reconhece suas especificidades, estabelece critérios transparentes e trata as organizações como produtoras de conhecimento, trabalho e vida comunitária.

Salvador (Bahia, Brasil) | Cidade Criativa da UNESCO em Música | Membro desde 2015.

Fontes: Silva e Mafra — “Apontamentos sobre a epistemologia circular dos blocos afrocarnavalescos de Salvador”, EccoS, 2023: estudo sobre produção de conhecimento, formação comunitária e dimensão educativa dessas organizações. / Pesquisa, análise e redação sob orientação editorial da EduCriativa.

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